Sou dono de um salão, e agora?

Tenho recebido quase sempre as mesmas perguntas aqui no blog e também em nossa página no Facebook:
– Tenho um salão há mais de dois anos, mas estou sempre no vermelho. O que estou fazendo de errado?
– A competitividade tem aumentado e os preços não correspondem ao valor do trabalho. O que fazer?
– Meu faturamento é de mais de R$ 70 mil por mês e não sobra nada! O que está errado?

Bem pessoal, há vários fatores que influenciam no negócio “salão de beleza”, tais como localização, tamanho, quantidade e qualidade dos serviços prestados, conforto para os clientes, valor dos serviços etc. Notem que eu disse valor e não preço dos serviços!

Todos estes fatores estão diretamente relacionados a sua capacidade de empreender e de administrar um negócio. Quero dizer que não basta ser um excelente profissional, você deve esforçar-se para aprender o mínimo de finanças e marketing. Tanto o SENAC quanto o SEBRAE tem excelentes cursos rápidos. Além disso, recomendo lerem duas revistas todos os meses: PEGN e ExamePME. Sei que pra você, que é profissional de beleza, o assunto é chato e entediante, mas é necessário!

Ao longo destes oito anos, implantando sistema de administração em salões de beleza, notei alguns pontos (pra não dizer erros) importantes que talvez você deva prestar atenção em seu negócio:

SISTEMA SEM COMPUTADOR

Comprei um computador e instalei um software de gestão de salão. Sabe o que isto significa? Significa que você tem um computador com um programa. Só isto!
Para ter um sistema você precisa acrescentar mais um elemento: Procedimento. Quando você tem procedimentos e cria rotinas de controle, mesmo não tendo computador e software, você tem um sistema.

Então defina procedimentos, estabeleça rotinas e crie um sistema de trabalho para seu salão, tais como:
– Fazer uma lista de compras de produtos com base no estoque atual toda segunda-feira. Comprar somente o necessário para os próximos N dias. Isto dependerá de seu fluxo de caixa e do movimento esperado.
– Fechar o caixa do salão todo final de dia. Neste caixa, você precisa saber quanto entrou em cheque, quanto entrou em dinheiro, quais clientes compraram “fiado” e quantos pagaram suas dívidas.
– Verificar contas a pagar todo início de dia. Depositar valores do dia anterior.
– Fazer pagamentos de comissões dos profissionais toda segunda-feira ou quinzenalmente. Estabeleça um prazo, defina percentuais de comissão e o que será descontado (produtos, taxa de cartões de crédito, custos diretos dos serviços etc).
– Trocar as flores da recepção a cada três dias
– Fazer levantamento de todos os produtos em estoque (inventário) uma vez por mês.
– Uma por semana, faça uma análise básica do seu negócio: quais serviços mais vendidos, quanto vendeu, quanto pagou de despesas, quanto sobrou.
– Mais alguns outros itens: limpeza constante, manutenção permanente (tem que estar sempre bonitinho), música, cafézinho etc.

DONO NÃO PODE FAZER O QUE QUISER!

Sou cabeleireiro e dono do salão, logo minha comissão é de 100%! ERRADO!
Sua comissão deve ser igual a dos outros profissionais. Mesmo que você não tenha outros profissionais, sua comissão deve ser aquela que você pagaria para outros profissionais se os tivesse.
A conta não vai fechar no final do mês: Se o salão paga 100% de comissão de onde vai tirar dinheiro para pagar todas as outras despesas? Ah, sei! Você vai pagar! Fica tudo embolado: a empresa (salão) paga suas contas, você paga as contas da empresa, quando precisa, tira do caixa. Uma verdadeira bagunça!

Ser profissional e dono do próprio salão requer disciplina também na sua vida pessoal. Separe as contas da empresa de suas contas pessoais.
Defina uma regra clara, estabeleça um retirada mensal como pro-labore, se for o caso. Crie um procedimento pra você e para o salão! O salão, como empresa, tem que se manter e criar um ambiente propício ao crescimento do negócio.

PREÇO NÃO É NADA, VALOR É TUDO

Já escrevi sobre isto neste outro artigo, mas vale a pena repassar…

Os clientes estão ficando cada vez mais exigentes e querem os melhores serviços pelos menores preços! O que hoje é algo mais no seu salão será copiado pela concorrência e deixará de ser um diferencial. Você deve inovar sempre!
Definir quanto vale seu serviço é mais complicado do que parece. Procure na internet “como definir preços para serviços” e você vai achar muita coisa. Existem até livros e cursos sobre o tema específico.
Mas, na minha opinião, no caso de salões de beleza (especialmente no caso de cabeleireiros) não se trata de definir um PREÇO mas de estabelecer um VALOR. E este valor está diretamente relacionado à percepção do cliente. É quanto ele acha que vale seu serviço!

É mais ou menos o seguinte, parodiando aquela propaganda:
– Cortar o cabelo no salão X: R$ 100,00
– Fazer uma escova no salão Y: R$ 50,00
– Ser elogiada pelo marido, que notou o novo visual: Não tem preço (mas tem um valor, com certeza)

O fato é que “As pessoas esquecerão o que você disse, as pessoas esquecerão o que você fez, mas elas nunca esquecerão como você as fez sentir!”.
A frase é da poetisa norte-americana Maya Angelou. Repense todas suas ações no seu negócio, orientando seus parceiros e colaboradores sempre neste sentido. Então, creio, você conseguirá estabelecer um VALOR justo para seu serviço.

Eis alguns itens negativos que já presenciei em salões e que devem ser evitados, pois REDUZEM o valor percebido pelo cliente:
– Cabeleireiro excelente, mas com auxiliar ruim, que, ao lavar a cabeça da cliente crava as unhas no couro cabeludo! Treine seus auxiliares.
– Uma cabeleireira despenteada e com raízes do cabelo necessitando retoque. Será que ela é realmente uma boa colorista?
– Uma maquiadora com unhas mal feitas e com mal hálito!
– Recepcionista mal humorada com atendimento ruim. Estaria na TPM?!
– Num outro salão, a cliente chegou 10 minutos atrasada e ninguém esforçou-se o mínimo para atendê-la. Simplesmente informou “agora não dá mais”. Como quem diz, se vira, marca outro dia!
– Profissionais de retaguarda mal treinados! Imagine alguém servindo um copo d’água “torneiral” num salão onde uma escova custa mais de R$ 100,00. Como acha que a cliente se sentiu?
– Flores murchas na recepção!
– Um tremendo “gato” (fiação elétrica inadequada ou mal feita) pra ligar o secador!
– Imagine alguém fazendo massagem relaxante: luz adequada, aroma dos óleos, música ambiente… De repente ecoa retumbante nos alto-falantes: “Fulana, sua cliente aguarda na recepção!”
– Aliás sobre anúncios, uma cliente fez o seguinte comentário comigo numa viagem: as manicures quando ouvem o anúncio de que sua próxima cliente está aguardando na recepção apressam-se em terminar a cliente que estão atendendo de qualquer jeito. Percepção de apenas uma cliente, ou de várias?!
– Num outro salão tinha tudo de bom(!): Água quente, café frio e bolacha murcha! Melhor não ter nada!
– E aquele vermelho escarlate na área do lavatório… Nada relaxante! Se a música ambiente for um pagode fica pior ainda. Não combina!
– Estive num salão onde tinha gato, gaiolas de passarinhos e aquário. Acho que a ANVISA ainda não tinha visitado.

SONHO X PLANEJAMENTO

Sonhar é preciso! É importante. Agora, sonhar alto ou sonhar pequeno, tanto faz! Já que o esforço é o mesmo, sonhe alto!
A diferença entre sonhadores e empreendedores é que estes fazem um planejamento. Nada muito mirabolante, como plano de negócios complicados, planilhas de custos, pesquisa de mercado e coisas do gênero, a não ser que você já tenha uma estrutura de grande, uma rede de salões, investidores… Não me interpretem mal, estas coisas são importantes em determinadas situações, caso contrário não existiriam!

O que quero dizer, é que você tem que saber onde quer chegar! Tem que estabelecer um objetivo e um prazo! Tem que ter uma meta!
Escreva esta meta, não a deixe apenas na imaginação.
Ao estabelecer uma meta, defina como alcançá-la. Um passo de cada vez. Sempre com critérios e controle, você certamente terá sucesso.

Vamos supor que seu salão seja muito pequeno, num cômodo separado em sua casa (acredito que haja mais de 300 mil salões assim no Brasil). Mas você quer crescer! Então percebe que no seu espaço cabe uma manicure e mais um cabeleireiro. Então começa o planejamento…
– Tenho espaço para mais uma cadeira de cabeleireiro?
– Vamos precisar de auxiliares?
– Uma só manicure será o suficiente?
– Vamos trabalhar com horário agendado ou por ordem de chegada?
– Quais tipos de serviços vamos oferecer? Serviços rápidos (escovas, corte, mão, pé) ou serviços especializados (coloração, alisamento, relaxamento)?
– Como será o espaço para química?
– Como o conforto dos clientes será afetado?
– Qual será o investimento necessário? Cadeira de cabeleireiro, espelho, ponto de energia, mais lavatório, mais cadeiras de espera…
– Vou fazer toda a parte administrativa ou devo contratar uma recepcionista (que também pode ser auxiliar)?
– Como vou dividir os custos com o novo parceiro (cabeleireiro)?
– Como vou dividir os ganhos?
– Quanto sobrará para salão (que é uma empresa) para novos investimentos?
– É hora certa de fazer isto? Você não vai querer perder as vendas de final de ano com uma reforma em dezembro, certo?

Uma vez que tudo esteja no papel, parta para a ação planejada.

Sonhe grande, mas planeje o mínimo no curto prazo. Pois, não dá para crescer sem planejamento e sem o mínimo de organização.
Não dá para confiar só na sorte. É muito mais uma questão de “suor”, trabalho mesmo.
E, por fim, leiam muito. Principalmente sobre temas que não dominem. Estudem! E quando se cansarem, descansem lendo ainda mais. Eu faço isto!

Grande abraço

Marcos Mascarenhas Torres
Diretor da Quorum Informática Ltda.
Idealizador do Sistema Graces